Biohacking: o que isso tem a ver com sexo?

Biohackers ou grinders são indivíduos que modificam seu próprio corpo adicionando dispositivos cibernéticos ou fazendo alterações a nível químico e biológico. Isto é feito com o uso de substâncias como nootrópicos, isto é, drogas e outros suplementos capazes de melhorar as capacidades cognitivas.

Por conta de suas características, a prática encontrou intersecção no movimento transhumanista, daí estando mais relacionada a procedimentos mais invasivos, como a implantação de dispositivos eletrônicos ou de substâncias não produzidas pelo corpo humano.

Onde começa e termina o biohacking

Contudo, tanto o biohacking como o ciborguismo podem encontrar paralelos quando a noção se vê ampliada. Não apenas na forma literal, como é o caso de biohackers como o cientista britânico Kevin Warwick, que ficou conhecido por seus implantes que promovem interação cérebro-máquina, mas mesmo quando passamos a manipular o que escolhemos comer, as atividades físicas que praticamos e a música que ouvimos: todos eles são capazes de interferir no nosso corpo em diferentes níveis.

Donna Haraway já havia levantado essa interpretação nos anos 90. Quando entrevistada pela Wired, disse que já éramos ciborgues desde que passamos a frequentar as academias e manipular nossa dieta para tornar nosso corpo mais musculoso e atlético do que ele normalmente seria sem esses cuidados.

Nesse sentido, a aplicação do biohacking no âmbito do sexo pode dizer respeito a modificações e implantações de dispositivos que vão interferir no desempenho e nas percepções durante o ato sexual, como também engloba novos hábitos alimentares e físicos visando essa finalidade – isso, aliás, já são uma forma de reprogramar nosso corpo de maneira menos invasiva e muito mais difundida na sociedade, porém não sob o rótulo de biohacking.

As possibilidades variam desde exercícios pélvicos até aplicativos de tracking do desempenho sexual (incluindo uma camisinha inteligente capaz de sincronizar com o celular), de brinquedos eróticos a implantes como o Lovetron9000, um dispositivo projetado pelo americano Rich Lee para que o pênis se transforme em um vibrador. Conhecido na cena biohacker por conta de ter implantado headphones em seus ouvidos, Rich trouxe o Lovetron como seu mais novo projeto, ainda em fase de prototipagem.

Já em um fórum dedicado ao tema do biohacking, o consenso entre os usuários é de que a prática visa alcançar uma melhor condição humana e o sexo, por consequência, também acaba fazendo parte desse escopo. Desse modo, o biohacking já vem influenciando o sexo para além da ficção científica, como mostrou Arikia Millikan em um artigo para o site Motherboard, em 2015.

O biohacking e a ficção científica

Biohacking 2

Ilustração de Theo Szczepanski para o romance Santa Clara Poltergeist, escrito pelo autor brasileiro Fausto Fawcett. A protagonista Clara é uma prostituta com pélvis eletrônica.

Em Cyborgs I have loved, Arikia compartilha seu encontro com outros ciborgues e biohackers, sendo que um deles, Kurt, era um engenheiro trabalhando em um vibrador que revolucionaria o mercado. Arikia conseguiu um exemplar para testar em casa e, desde o primeiro orgasmo que o dispositivo lhe proporcionou, foi como se a jornalista já se sentisse ligada ao inventor.

Mais tarde, ao encontrar outro amigo, Case, Arikia teve a surpresa de descobrir que o vibrador que ganhou de Kurt poderia ter arrancado os imãs que Case havia implantado em seus dedos, já que o dispositivo possuía um núcleo altamente magnetizado. “Cinquenta anos atrás, isso se pareceria muito com ficção científica. Hoje, é simplesmente minha vida sexual“, ela compartilha.

Isto é, o artigo de Arikia já havia esclarecido há dois anos que o biohacking não só já era um fato (inclusive no Brasil), como também já demonstrava seus efeitos no âmbito do sexo.

Para além dos implantes e a incompatibilidade entre eles, o biohacking aplicado à vida sexual já se faz presente em práticas como o pompoarismo até o uso de substâncias estimulantes (do Viagra aos óleos de massagem), porém estes exemplos popularizados não trazem consigo o mindset por trás do biohacking.

#futurodosexo #boracontribuirfs

Por conta disso, acabamos por postergar o biohacking para um cenário futuro, quando escolhas mais extremas e tecnologicamente mais avançadas tomarão um espaço que não necessariamente estará alinhado à ética atual ou nem mesmo à sua época, já que a cultura hacker, afinal, traz em si a experimentação acima das barreiras morais.

Imagem: scifiempire.net

Legenda: Scarlett Johansson como Major, uma policial ciborgue, e a modelo Adwoa Aboah como Lia em Ghost in the Shell (2017).

Biohacking: o que isso tem a ver com sexo?

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Sobre o Autor
- Jornalista, pesquisadora e futuróloga