Qual o legado que Hugh Hefner da Playboy deixa para o futuro do sexo?

A modelo Sarah McDaniel na capa da Playboy americana de março de 2016. Na busca de se reinventar, a revista busca por uma estética próxima a das redes sociais. 

Aos 91 anos, morreu no dia 27 de setembro o fundador e principal figura de um dos grandes impérios de entretenimento adulto no mundo: Hugh Hefner.

Hefner tinha 27 anos e já trabalhava no mercado editorial quando teve a ideia de criar uma revista masculina. Era o ano 1953, e Hefner havia reparado como as publicações para homens da época resumiam-se a falar de carros, caça ou armas, mas não de mulheres.

Ele pegou um empréstimo de sua mãe e de alguns amigos, comprou por 500 dólares alguns nudes pouco vistos de Marilyn Monroe e lançou o primeiro exemplar da revista Playboy.

A simples iniciativa de exibir mulheres nuas em páginas de revista, porém, deu encadeamento a processos culturais ainda subestimados. Afinal, a Playboy inaugurou uma outra forma de lidar com o corpo nu que influenciou a sexualidade do século XX e ainda gera efeitos neste século XXI.

A sexualidade com a Playboy

Os Estados Unidos haviam acabado de sair vitoriosos da Segunda Guerra Mundial quando Hefner começou a trabalhar no mercado editorial. A década de 1950 foram os anos de ouro dos americanos.

American Way of Life era alardeado como propaganda contra o comunismo soviético. Hollywood se tornava a máquina de sonhos que conhecemos hoje. O rock’n roll tocava incessantemente nas rádios. A cultura americana virava produto de exportação.

A Playboy é consequência direta daquele ambiente. Mais do que corpos nus, ela vendia um estilo de vida americano. Ainda que com a resistência de setores conservadores, com a Playboy, Hefner se tornava o modelo de todo esse modo de levar a vida.

É claro que a nudez não era uma novidade. O século XIX, imediatamente anterior, também produziu diversas imagens eróticas. Proibidas e secretas, as ilustrações de então eram modos de lidar com os tabus e dar vazão criativa aos comportamentos tidos como desviantes do sexo em uma época de controle rígido sobre as sexualidades.

Ilustração atribuída a Achille Devéria para uma novela erótica do fim do século XIX. De maneira fantástica, o desenho erótico rompia com temas considerados tabus, como a masturbação.

Mas o fim do século XIX e o começo do século XX assistiram a popularização da fotografia. Uma foto não é uma representação, apenas. Ela se propõe como a própria realidade. Uma foto é a verdade, ou ao menos pretende ser. Ao mostrar fotos de mulheres nuas, o mundo via, pela primeira vez em um suporte, o corpo nu “real”. E isso muda tudo. Não se trata mais de representar de maneira imaginativa o sexo e seus tabus, mas buscar reproduzí-lo tecnicamente em imagens tal qual ele é.

A Playboy, então, passa a reproduzir em escala corpos nus e a vendê-los como padrão de consumo. É somente neste contexto que podemos diferenciar erotismo de pornografia: o pornô não é toda exposição do sexo, mas um tipo de exposição para o consumo. A imagem pornográfica não é uma representação do ato sexual, mas ela própria se propõe enquanto sexo tal como ele é. E a Playboy inventou isso.

Ao mesmo tempo em que a Playboy expõe esse corpo nu e, por isso, não deixa de assumir uma posição política, a revista assume um vácuo simbólico que, outrora, era do amor cortês medieval (um dos temas que explorarei em um post em breve). Por meio do consumo de imagens de mulheres nuas, jovens meninos tinham, na revista, um modo de domar sua sexualidade. A foto de Marilyn Monroe nua se coloca como seu desejo. Um ludíbrio, um artifício que se põe no lugar de outro corpo.

A sexualidade depois da Playboy

A Playboy teve décadas e décadas de poderio econômico. A marca assistiu a ascensão de toda forma de conteúdo pornográfico, sendo ela própria a produtora de parte relevante dele. Temos assistido, muito recentemente, a relativa derrocada desse poderio. O pornô da internet tem uma oferta tão maior e mais estimulante que a revista impressa que a simples nudez não é mais suficiente para excitar jovens rapazes.

Mas na cultura, nada se apaga. Aquilo que foi feito não morre, mas permanece como tendência ou vetor para o futuro. Por isso, em resumo, há três vetores correlatos que Hefner e a Playboy desencadearam, ainda em curso.

Não um, mas os legados de Hugh Hefner

O consumo de imagens do corpo. 

Já reparou como a nudez não nos incomoda tanto assim quando em contextos de consumo? Na sala de cinema, no comercial de cerveja, no outdoor de uma marca de lingeries ou, mais explicitamente, nos vídeos pornográficos. O corpo nu, tridimensional, na nossa frente, choca. Quando o vemos, nós nos reparamos com a aterrorizante verdade do sexo. Mas o corpo nu tornado imagem e comercializado faz parte do cotidiano. Lá na imagem, o nosso pavor contra o sexo permanece, mas devidamente domado e controlado. Nesse sentido, devemos considerar a hipótese de que a imagem pornográfica talvez seja super eficiente em reprimir a sexualidade ao excluir dela essa presença chocante do corpo. O que nos leva a segunda tendência.

A (ainda maior) superexposição do sexo.

O sexo não é mais assunto de mistérios. O realismo da fotografia e do vídeo não deixa espaço para dúvidas ou segredos. Iniciativas tendem a dar a ele, então, função pedagógica, como o site Make Love Not Porn, na tentativa de flexibilizar os efeitos dessas imagens. Uma das hipóteses de Michel Foucault em A História da Sexualidade é de que o discurso crítico contra a repressão do sexo esbarra em um mecanismo de poder e acaba se tornando parte daquilo que denuncia. Trazendo para o século XXI, seria como dizer que a superexposição do sexo, por meio da imagem pornográfica, ainda que tenha nascido ela de uma crítica à repressão, retorna, outra vez, com uma função de adestramento do sexo. O que nos leva à terceira tendência, que aglutina as últimas duas.

A ascensão de novas formas de domar sexualidades desviantes.

Um estudo desenvolvido pela  Foundation for Responsible Robotics concluiu que robôs poderão ser usados como válvula de escape para pessoas com histórico de assédio e pedofilia. Não é o caso, nesse texto, de analisar a ética desses eventos e iniciativas. É interessante, porém, entender o avanço de um vetor. Ao passo que a imagem pornográfica busca maior realismo, por meio da realidade virtual e dos sex robots, ela própria se coloca no lugar do sexo com maior eficiência. O menino da década de 1950 aprendia a lidar com seu desejo com o nude de Marilyn Monroe. Era com a Playboy que se domou seu impulso sexual, direcionando-o a uma foto e não a uma mulher, de corpo presente. A masturbação, que até o início do século XX era considerada uma prática desviante, passa a ser circunscrita e controlada graças à Playboy. E isso não porque era da intenção de Hefner propor um controle, mas porque a própria crítica à repressão e a superexposição do sexo se confundem com mecanismos de poder que o gerenciam. Quanto mais se expõe o sexo, historicamente, mais ele é normatizado — tanto no sentido de tornar-se normal ou comum, quanto no sentido de obedecer à normas. Esse mesmo vetor é o que nos levará à tecnologias que, ao se colocar no lugar do sexo, gerenciarão as sexualidades tidas como desviantes na nossa época e de épocas futuras.

Não nos esqueçamos: a revista impressa foi uma tecnologia. A fotografia colorida foi uma tecnologia. E cada invenção técnica molda a percepção do eu e da nossa relação com o mundo. A Playboy fez isso. Nesse sentido, robôs sexuais estão ali no mesmo vetor tecnológico e cultural que inventou a Playboy. Quem imaginaria que aquele nude de Marilyn Monroe faria tanta diferença assim?

#boracontribuirfs #futurodosexo

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Imagem: 

Livro “Erotica 19th Century, From Courbet to Gauguin”, de Gilles Neret, da editora Taschen

Foto da Sarah McDaniel é a capa da da Playboy de março de 2016, a primeira sem nu

Qual o legado que Hugh Hefner da Playboy deixa para o futuro do sexo?

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Sobre o Autor
- Mestre em Comunicação e Semiótica, jornalista, comunicólogo e um apreciador de bons papos.