Num futuro próximo: eu espero que voltemos ao passado

A evolução é considerada pela Ciência um caminho sem volta. Vai-se sempre para  frente, por vezes olhando o passado, mas a mirada é sempre adiante, no futuro. É um caminho que persegue o progresso, o desenvolvimento. Sinceramente, não sei se esse conceito se aplica à prática sexual e à história do sexo ao longo dos milênios, séculos e décadas.

Não sou uma estudiosa, uma cientista ou uma historiadora das práticas e do comportamento íntimo, mas, como curiosa e praticante, posso dizer que o que eu já li sobre o passado do sexo e o que eu vejo na minha alcova ou escuto em conversas geralmente reservadas — sim porque a nossa sociedade inverteu os pensamentos, evoluímos do ponto de vista tecnológico, mas, do ponto de vista comportamental, no quesito sexo, “involuímos”, e portanto, falar de sexo abertamente é tabu — é um total desconhecimento do desejo, conceito e serventia, bem como dos genitais e das zonas erógenas do corpo.

Para se pensar em sexo no futuro é preciso beber da fonte de prazer do passado. Dessa maneira, entendemos melhor nosso presente sexual e, assim, caminhamos para o futuro desejável.

Lousa

Em pleno terceiro milênio, sexo ainda é sujo, pecaminoso e, em algumas sociedades, criminoso. Quer dizer, na contramão da Ciência, a maneira como praticamos e lidamos com o sexo retrocedeu da Grécia, da Roma e da Índia antigas para cá. Éramos mais evoluídos no sexo a.C. do que somos d.C. ­— inclusive a religião tem muito a ver com essa “involução” (coloco aqui o termo entre aspas porque o significado é bem diferente do que aquele que está no dicionário). E as sociedades ocidentais ainda mais que as orientais, que sempre lidaram melhor com a sexualidade e o sexo, conforme relatos históricos e peças de arte de séculos e milênios passados, encontradas em escavações e descobertas arqueológicas — nos revelando, quase como uma HQ de afrescos e tapeçarias, a deliciosa permissividade sexual dos antigos. Afinal o Kamasutra foi escrito em 400 a.C. e ainda é bem atual, apesar de, infelizmente, ser considerado despudorado e pornográfico por muitos seres “evoluídos”.

Em várias culturas orientais antigas e medievais a prostituição e a homossexualidade eram aceitas e haviam muitas casas que abrigavam profissionais do sexo que, inclusive, pagavam taxas aos governos. Ou seja, eram consideradas atividades comerciais e seus empreendedores eram tratados com o mesmo respeito que os demais mercantes.

Mesmo atrás na corrida de quem lida melhor com o sexo, a Grécia e Roma antigas aceitavam o sexo entre homens e, por vezes, até o incesto. Hoje mata-se e prende-se por isso — apesar de a Constituição brasileira não enxergar incesto, por exemplo, como crime e muito menos a homossexualidade. Porém se o legal não condena, a moral não deixa barato e condena e encarcera qualquer pensamento mais ousado.

Revolução #sóquenão

Nem é preciso ter o Tico e o Teco turbinados com Red Bull para saber que a Revolução Industrial, no Ocidente, tem uma boa parcela de culpa nessa inversão da percepção do que se pode e deve e do que não se pode e deve fazer e da disseminação do sexo — afinal, trabalhadores exauridos, após trabalharem por 16 horas diárias (muitos trabalhavam 19 horas) não tinham energia para o sexo, ao mesmo tempo que pessoas cansadas de uma agenda noturna em meio à esbórnia não poderiam render tudo o que podiam no dia seguinte nas fábricas. Claro que a religião também tem um importante papel de freio moral do sexo, mas isso pode ser assunto para um outro texto (ou não).

Somos seres “involuídos”

Aliás, se a religião atrapalha, imagina como o sexo foi tratado numa nação com dual vocação religiosa? A poderosa moral do Reino Unido — que não foi capaz nem de absorver as benesses da evolução sexual de Roma, quando se tornou parte do Império Romano — foi responsável por rotular o lugar como um dos mais caretas e perversos ao tratar a sexualidade — bem diferente da sua eterna rival, a França, que lidou melhor com o desejo dos seus súditos e habitantes. No século 16 a homossexualidade passou a ser punida com a morte, no reino. Só em 1967 é que os britânicos colocaram um fim (ou quase) à perseguição dos homossexuais.

Não à toa que foi lá que a minissaia surgiu — onde há repressão vem sempre um aríete de contracultura para empurrar a todos numa nova fase da vida (ufa!). Inclusive, a apregoada Revolução Sexual dos anos 1960 e 1970, que se espalhou por praticamente todo o mundo ocidental, teve reverberações mais fortes e retumbantes nos Estados Unidos e no próprio Reino Unido, como um forte indício de que a coisa por ali não andava nada bem…

Reflexão

Assim, se pretendemos um futuro para o sexo temos que, urgente, visitar um passado bem remoto das civilizações ocidentais e orientais, dar uma olhada também  nos erros do passado — muitos que perduram até hoje — para tentar seguir em frente, pensando no progresso das relações físicas, carnais, sexuais, como manda a Ciência. Quem sabe consigamos chegar à evolução dos povos antigos no que tangia à permissividade sexual (lembrando aos haters de plantão que a ideia aqui é focar no lado bom de um determinado estrato do comportamento humano e não exaltar a perversidade e a violência praticadas por nossos ancestrais. Traduzindo, não estou dizendo aqui que os antigos eram fofos).

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#boracontribuirfs

Imagem: Pixabay

Num futuro próximo: eu espero que voltemos ao passado

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Sobre o Autor
- Libertária e humanitária do sexo