O consumo de pornografia pode influenciar em sua sexualidade

O neurocientista Gary Wilson tem alardeado sobre o efeito do consumo pornográfico. Sua pesquisa se tornou livro, o intitulado Your Brain on Porn. O mesmo nome recebe seu site, onde centraliza pesquisas sobre como a pornografia afeta a sexualidade de seus usuários.

Não demorou para que a sua página transgredisse a função acadêmica. Hoje, ela é também uma agregadora de pessoas que atribuem ao pornô um conjunto de problemas relacionados ao sexo e ao desempenho sexual, principalmente entre homens heterossexuais.

Em 2012, em uma palestra TEDx em Glasgow, Wilson deu conta de resumir os principais resultados de sua pesquisa. Segundo ele, a pornografia se beneficia do chamado efeito Coolidge, o efeito da novidade: entre mamíferos, os machos conseguem manter maior estimulação sexual quando trocam de parceiras.

  Imagem extraída da apresentação do Gary Wilson no TEDx Glasgow

O Efeito Coolidge: com a mesma parceira, um mamífero macho leva cada vez mais tempo para alcançar o orgasmo.

Poderia a pornografia gerar no cérebro mecanismos semelhante ao de vício por entorpecentes?

A internet é um mar de novidade quando se trata de pornografia. E, para o cérebro, não há muita diferença entre consumir um vídeo pornográfico ou transar, de fato, com outra pessoa. Cada novo vídeo, então, seria como um novo parceiro sexual. Cada sessão de pornografia gera uma nova porrada de estímulos. E para “chegar lá” outras vezes, na mesma intensidade, será necessário consumir mais vídeos diferentes, mais impactantes e incrivelmente estimulantes.

Nesse cenário, aquele sexo convencional entre duas pessoas estará cada vez em maior desvantagem se comparado ao pornô hardcore. A transa a dois não chega nem perto de ser tão nova e terrivelmente estimulante quanto um vídeo planejado para impactar, com suas mulheres flexíveis e homens de falos enormes.

O sintoma disso é uma incidência maior de disfunção erétil e outras dificuldades de performance sexual entre jovens sem quaisquer problemas fisiológicos, mas habituados ao consumo pornográfico. Tornou-se mais fácil atingir um orgasmo, ainda que ele seja fugaz, masturbando-se em frente ao computador do que com outra pessoa.

Em outro artigo, Wilson e uma equipe de médicos relatam casos de homens com menos de 40 anos com histórico de disfunção erétil. Nos relatórios clínicos destes pacientes, consta que apenas a redução de consumo pornográfico foi suficiente para a volta de uma vida sexual mais sadia. Os resultados sugerem que a pornografia gera no cérebro mecanismos semelhante ao de vício por entorpecentes.

Mas há controvérsias. Publicado na revista Socioaffective Neuroscience of Psychology, outro estudo examinou via eletroencefalogramas o cérebro de pessoas que relataram ter dificuldade em controlar seu consumo pornográfico. Os 52 sujeitos de pesquisa, homens e mulheres, foram examinados enquanto assistiam a imagens pornôs. Mas os pesquisadores não detectaram alterações cerebrais significativas o suficiente para alegar um tipo de vício similar ao de outras drogas.

Ainda que a hipótese do vício não seja consistente o suficiente, não dá para ignorar este estranho fenômeno: a incidência de disfunção erétil entre jovens saudáveis habituados a consumir pornografia.

Ainda que de maneira descompromissada, quero lançar a minha hipótese sobre o tema. Não é vício, mas as imagens que consumimos, principalmente via mídia eletrônica, se tornam capazes, pela sua imensa capilaridade, de colocar-se no lugar da nossa própria capacidade imaginativa.

De onde vem o tesão por imagens? 

Aquilo que nos dá tesão é um conjunto de estímulos corporais e de representações que construímos ao longo da vida e ao longo da trajetória da nossa espécie. Substitua isso por uma imagem externa, um produto super potente em seus efeitos. O que teremos, talvez, seja uma sexualidade de reprodução. Não aquela que imagina ativamente, mas aquela que repete padrões e cria expectativas em torno deles.

Trago, então, outro caso que ajuda a ilustrar essa ideia.

Em uma pesquisa que eu desenvolvi, pedi a crianças do primeiro ano do ensino fundamental que desenhassem para mim coisas que relacionavam à escola e às aulas. Aquelas crianças usavam tablets três ou mais vezes por semana durante as aulas em uma escola particular de São Paulo. Três crianças diferentes, de três turmas diferentes, desenharam em momentos distintos estes três desenhos.

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Nos três desenhos acima, as crianças apenas copiam elementos de uma tela do app O Jogo da Forca com semelhança assombrosa entre os três. Dentre os 101 desenhos coletados, diversos elementos visuais das telas do tablet e seus softwares apareceram, algumas com reinvenção imaginativa. Todavia, houve tantos outros, das quais esses três são os mais flagrantes, de apenas reproduções.

Essa observação permite induzir por indício que, quando muito expostas a imagens externas, das telas, e sem o devido trabalho de apropriação corporal sobre essas imagens, as crianças pouco resilientes passam apenas a reproduzi-las em seu conteúdo imagético interior.

Em situação análoga, seria o caso de induzir que adultos habituados a consumir imagens pornográficas sem nenhuma forma de apropriação cultural, corporal e imaginativa das mesmas, também estariam fadados a apenas repeti-las em suas relações? Tornando, assim, inalcançável o prazer em tudo aquilo que está fora das imagens consumidas?

A  confirmação dessa hipótese não implicaria em dizer que a pornografia é um vício, mas acende um sinal de alerta. Estaríamos diante de um cenário de transição para uma sexualidade mediada por imagens, aparatos e telas.

Mas em um âmbito absolutamente pessoal, vale a reflexão: como é o seu consumo de pornografia? Ele de alguma forma altera o modo como você tem vivido sua sexualidade?

Conte para a gente nos comentários e nos ajude a mapear mais detalhadamente os impactos da pornografia hoje e para o futuro do sexo.

#boracontribuirfs

 

 

O consumo de pornografia pode influenciar em sua sexualidade

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Sobre o Autor
- Mestre em Comunicação e Semiótica, jornalista, comunicólogo e um apreciador de bons papos.