O que será da sexualidade em 2065? [+18]

Nasci ansioso, com quase dez meses, ou seja, atrasado, praticamente usando relógio no pulso. Daqui a três meses completo 48 anos de insistências, resiliências e retomadas de percurso. Minha mãe rasgou a vagina dela para eu sair no ano e na década que remetem a sexo, 1969, escorpião com ascendência em escorpião, o que explica, em boa parte, o porquê de eu estudar o tema. Como a data me aponta mais da metade da minha existência provável, vou contar uma historinha sobre essas questões ligadas à identidade.

Aos dois anos, eu já achava brinquedo algo muito infantil, e queria aprender a ler, ou seja, consumo vem depois de entender o que preciso comprar. Meus pais diziam que eu iria dar trabalho porque meus colegas de berçário queriam objetos para por na boca, e eu nem aí para as preferências gustativas alheias.

Esqueceram de perceber que eu não fiz amizades no berçário, ninguém falava mesmo. Aos cinco, precisei ir à escola porque aprendi a ler vendo TV. Aos sete já comandava as crianças do bairro com chão de areia. Organizava brincadeiras por dia e tarefas de casa ligadas a estudos. Quem não aprendesse uma palavra nova, não enfrentasse um novo desafio, não se reinventasse, não brincava. Escorpião, o aracnídeo, não anda em grupos e demarca territórios.

Aos 13 comecei a fazer sexo, à maneira que alguém com essa idade pode fazer. Aqui não entrarei em detalhes para preservar as fontes – jargão que usamos no jornalismo para guardar segredos e, sim, foram duas primas minhas. Depois mais e mais relações e sobrevivências até os 15 anos, quando dormi fora de casa por todo um fim de semana. Meus pais tinham certeza que eu daria trabalho. Decidi fazer amizade com estranhos, então, e fui ampliar território.

Agora entro na terceira fase de minha atividade sexual, mas isso nem importa muito porque somos processos e não conclusões. Minha curiosidade tem a ver com o que virá depois de minha morte. Sim, todo mundo morre, e essa ilusão perdi quando respirei depois de cuspido pelas entranhas maternais.

Aqui onde queria chegar: que questões ainda serão discutidas relativas à sexualidade humana daqui a outros 48 anos? Será que diferentes orientações sexuais ainda serão assunto para redes sociais – quaisquer delas – e/ou punidas pela Igreja, pela Família e pelo Estado – não acho que Deus tenha a ver com isso.

Será que as mulheres terão direitos equânimes aos dos homens, pedirão licença para ir e vir, ter ou não ter filhos e ainda terão de esperar autorizações para extirpar o que quiserem do próprio corpo, inclusive fetos? E, acima de tudo, não serão mais violadas em sua intimidade? Será que homens ficarão desobrigados a serem provedores e poderão ser penetrados sem diminuir sua masculinidade? Melhor ainda: o uso do ânus para fins recreativos deixará de ser uma questão?

Será que transgêneros terão recursos financeiros, psicológicos, jurídicos e sociais para impedir a cisão entre a identidade sexual e o gênero experienciado? Será que profissionais do sexo serão respeitados e considerados como tais, profissionais? Será que crianças e adolescentes terão acesso a informações ligadas às três dimensões do sexo – biológica, psicológica e social – em casa e na escola? Será que o amor será irrestrito e a opinião estrangeira será um exílio? Será que canais de comunicação como este não serão exceções e, sim, banais ou ultrapassados?

Espero que tudo isso que citei, insinuei, provoquei e inventei acima cause espanto nos jovens de 2065, como se fosse impertinência de gente antiga, da segunda década do século 21. Me cobra se estivermos por aqui ainda? Tudo que escrevi é uma provocação a partir de um texto que escrevi no UOL, e tive a curiosidade de ler os comentários. A maioria cobra respostas, quando desconfio dos que têm certeza de alguma coisa nessa fase histórica de transição ética. Que venham muito mais perguntas que respostas sobre nossa complexa espécie. #boracontribuirfs

O que será da sexualidade em 2065? [+18]

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