O sexo do futuro será holístico?

A ilustração abaixo apareceu originalmente em uma toalha de praia em 1969 e foi inserida na capa do livro “A Política Sexual da Carne”, da escritora estadunidense Carol J. Adams.

Segundo ela, a cultura patriarcal trata as mulheres, assim como os animais, por meio de um processo de objetificação, fragmentação e consumo.

O livro contém vários exemplos nos quais mulheres e animais são tratados como objetos inertes, que não sentem, e demonstra como o processo de fragmentação pode levar à perda da dimensão da totalidade e ao esquecimento das mulheres / dos animais como entidades independentes.

Tanto mulheres como animais são reduzidos a partes do corpo – e essas partes podem ser consumidas isoladamente sem a referência do que elas integravam. Os animais podem ser o referente ausente no ato de comer carne, assim como as mulheres podem ser o referente ausente no ato sexual.

E os homens, não são passíveis de objetificação, fragmentação e consumo?

A partir de uma perspectiva de Paul B. Preciado, filósofo espanhol, poderíamos dizer que sim, eles também são.

Práticas contrassexuais

No seu primeiro livro, lançado em português em 2015, Preciado concebe que os órgãos que reconhecemos como naturalmente sexuais são o produto de uma tecnologia sofisticada que prescreve o contexto em que os órgãos adquirem sua significação – as relações sexuais.

Essa tecnologia identifica os órgãos reprodutivos como órgãos sexuais, em detrimento de uma sexualização do corpo em sua totalidade, e opera por divisão e fragmentação do corpo: recorta órgãos e gera zonas de alta intensidade sensitiva e motriz.

Determinadas partes da totalidade do corpo são isoladas e tornadas sexualmente significativas. O corpo é encarado como um texto socialmente construído, um arquivo orgânico da história da humanidade como história da produção-reprodução sexual.

Diante dessa concepção, o autor propõe a desconstrução sistemática da naturalização das práticas sexuais e a produção de práticas contrassexuais alternativas à sexualidade moderna, compreendidas como formas de contradisciplina sexual.

No âmbito da contrassexualidade, os corpos se reconhecem como corpos falantes e reconhecem em si mesmos a possibilidade de acessar todas as práticas significantes.

Como o corpo será lido e significado no sexo do futuro? Tal leitura e significação dificultará que partes do corpo sejam valorizadas em substituição da valorização das pessoas em sua totalidade? E o que estará incluído na noção de totalidade?

Práticas holísticas 

Em fevereiro de 2006, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no Sistema Único de Saúde foi aprovada com unanimidade pelo Conselho Nacional de Saúde no Brasil. De acordo com o Portal da Saúde, 1.708 municípios já oferecem tais práticas gratuitamente à população.

A maioria das práticas integrativas e complementares se baseia em uma abordagem holística que considera bem-estar e doença como eventos ligados à dimensão espiritual, mental, energética, emocional e física de cada ser humano. Tal abordagem entende que os elementos de cada dimensão formam um sistema que não deve ser perdido de vista em cada tratamento.

Se é possível constatar novas práticas relacionadas à saúde que se baseiam em uma visão holística do ser, também constataremos novas práticas relacionadas ao sexo que se basearão nessa visão? O que mudará se nós passarmos, por exemplo, do foco nos órgãos reprodutores para a observação do que ocorre também a nível emocional, energético, mental e espiritual durante uma relação sexual?

Segundo a treinadora mental Elainne Ourives, as pessoas nunca aprenderam que a energia sexual é uma força poderosa que podemos usar para expandir os nossos campos de energia. Para ela, “como” e “com quem” nós usamos essa energia estão entre as decisões mais importantes que podemos tomar na vida.

Como será o sexo do futuro se a maioria das pessoas puder ampliar sua compreensão disso tudo e agir a partir dela?

#boracontribuirfs

Você já se sentiu tratado/a como um pedaço de carne? O que você acha de apenas algumas partes do corpo serem sexualizadas? Já parou para pensar em todos os efeitos de uma relação sexual? O sexo do futuro será holístico para você?

O sexo do futuro será holístico?

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Sobre o Autor
- Por que é assim? E se fosse melhor, como seria? Das perguntas que me movem, essas estão entre as favoritas.