The Handmaid’s Tale: futuro do sexo perturbador e possível

“Nolite te bastardes carborundorum” (Não deixe os bastardos te abaterem)

Baseada no livro de Margaret Antwood, The Handmaid’s Tale é uma distopia que trata de temas atuais e urgentes como o direito da mulher sobre o corpo, reprodução e a instabilidade de direitos básicos que encaramos como adquiridos (e supostamente imutáveis).

Assim como em Black Mirror, esta narrativa recentemente transformada em série, The Handmaid’s Tale perturba pela sua proximidade com a realidade. O livro, escrito na metade dos anos 80, traz referências à revolução ocorrida no Afeganistão na mesma época, tomado pelo Talibã em um regime totalitário e teocrático.

The Handmaid’s Tale passa em Gilead, um Estados Unidos do futuro, num momento em que os níveis de fertilidade estão em declínio e um novo sistema é estabelecido para garantir a perpetuação da espécie humana. As mulheres são divididas em castas, as inférteis e as poucas mulheres férteis, Aias (handmaides). Estas são isoladas e treinadas, reduzidas a sua função reprodutiva.

Better never means better for everyone… It always means worse, for some.” 

A partir do ponto de vista de Offred, que é uma Aia, são alternadas cenas do passado e do presente, que vão aos poucos explicando os saltos lógicos que levaram a essa nova realidade.

Num mundo onde a reprodução é rara e por isso se torna uma função vital, existe espaço para o direito dessas poucas mulheres sobre o seu corpo? Ou é compreensível que ele se torne propriedade de um estado que garanta a continuidade da nossa espécie?

São perguntas extrapoladas pela série The Handmaid’s Tale, mas que conversam muito sobre discursos atuais que defendem a permanência do poder de decisão sobre o corpo das mulheres na mão de entidades invisíveis (seja a sociedade, Deus ou o Estado). Além disso, assim como na série, vivemos num tempo em que homens se reúnem para tomar decisões sobre o corpo alheio (não só o da mulher cis, mas de pessoas trans por exemplo), onde presidentes (nem sempre) eleitos não tem pudor ao reduzir a função social das mulheres ao trabalho doméstico, etc.

The Handmaid’s Tale: não é uma profecia, mas serve de alerta!

A série é  uma história de resistência e sobre como é possível alterar padrões sobre o que é normal ou anormal. Em um artigo para o The New York Times chamado “Margaret Atwood sobre o que ‘The Handmaid’s Tale’ significa na era Trump”, a autora explora ainda mais essas questões:

“Primeiro: o livro é ‘feminista’?

Se você quer dizer um panfleto ideológico no qual todas as mulheres são anjos e/ou tão vitimizadas que são incapaz de escolhas morais, não. Se você quer dizer um livro no qual mulheres são seres humanos – com todas as variações de caráter e comportamento que isso implica – e também são interessantes e importantes, e o que acontece com elas é crucial para o tema, estrutura e trama do livro, então nesse sentido, muitos livros são ‘feministas’. (…)

A segunda pergunta é: ‘The Handmaid’s Tale’ é contra a religião?

Novamente, depende do que você acha. É verdade, um grupo de homens autoritários tomam o controle e tentam retomar uma versão extrema do patriarcado, na qual mulheres (como escravos americanos do século 19) são proibidas de ler. Mais para a frente, elas não podem mais ter dinheiro ou ter empregos fora de casa, ao contrário de algumas mulheres na Bíblia. No livro, a ‘religião’ dominante quer obter controle doutrinário, e denominações religiosas familiares a nós estão sendo aniquiladas. Então o livro não é anti-religião. É contra o uso da religião como justificativa para a tirania; o que é algo totalmente diferente.

A terceira pergunta é: o livro é uma previsão?

Não, porque prever o futuro não é possível: há muitas variáveis e possibilidades impossíveis de descobrir. Vamos dizer que seja uma antiprevisão: se esse futuro pode ser descrito com detalhes, talvez ele não vá acontecer. Por causa da recente eleição americana, medo e ansiedade se espalham.

Liberdades civis básicas são vistas como ameaçadas, assim como muitos direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas e nos últimos séculos. Nesse clima divisivo, no qual ódio por vários grupos parece aumentar e o desprezo por instituições democráticas está sendo expressado por extremistas de todos os tipos, é certeza de que alguém, em algum lugar está escrevendo o que está acontecendo enquanto essa mesma pessoa vivencia tudo isso.

Ou as pessoas vão se lembrar e gravar depois, se puderem. Essas mensagens serão oprimidas e escondidas? Elas serão encontradas, séculos depois, numa casa antiga atrás de uma parede. Vamos torcer para que isso não aconteça. Eu acho que não vai.”

 

Ainda indisponível no Brasil, a série The Handmaid’s Tale deve ser exibida em janeiro de 2018 pelo canal de TV por assinatura Paramount Channel, mas até lá você pode ler o livro que deu origem à série.

#boracontribuirfs #futurodosexo

Se você já assistiu ou leu The Handmaid’s Tale, compartilhe com a gente a sua visão sobre a obra: exagero ou perto demais da realidade? Será que seremos capazes de evitar um futuro assim? 

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Imagem: trbimg.com

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